A violência no ES e o debate

O aumento de casos de crimes violentos coincidente com a greve da polícia militar no Espírito Santo reacende o debate: “policia, para quê precisa?” Os dados, para muitos, são prova irrefutável de que a militarização é indispensável. Para outros, isso não prova nada e a desmilitarização ainda é importante. O fato é que de um lado e de outro há uma falha na conclusão por que há uma falha na hipótese. Continuar lendo

Publicado em Cidade | Deixe um comentário

A cidade, a política e a mágica (ou: Só mais um texto)

Tenho escrito cada vez menos, mas nas últimas semanas a vontade de escrever veio crescendo frente às últimas notícias sobre São Paulo – redução de velocidade, ciclovias, paulista, etc. Por alguns dias pensei que fosse importante registrar um ponto de vista sobre tudo isso como quem quer dar a palavra de Minerva, e dai então todos estariam iluminados, os maus entendidos resolvidos, e todos estaríamos vivendo em harmonia.

Talvez a ciência de quanto ridículo essa ideia é me fez desistir de escrever, mais uma vez. Essa é a vantagem de ter um blog pequeno e pessoal: escrevo quando acho necessário. Um texto sobre qualquer desses assuntos em pauta, que envolvem a cidade, seria isso: um texto. E nada mais. E disso nasceu a ideia deste presente texto.

Em algum momento no meio disso lembrei do quanto gosto de mágica, e pensando nela me veio a iluminação sobre o que estava perambulando em minhas ideias nas últimas semanas: um texto seria apenas mais um texto, não teria um ponto novo sobre nada, não solucionaria nossas angústias, mas ele teria uma função importante: ser exatamente isso, apenas um texto. Muito do que se publicou neste tempo sobre as pautas mais acessadas é exatamente isso, apenas mais um texto. Ou seja: eu estaria entrando no jogo.

Que jogo? O que faz toda mágica ser mágica e não realidade: a distração. Todo bom mágico, além de muito habilidoso e de oferecer algumas informações falsas, sabe muito bem como distrair sua plateia. Ele te faz crer que a mágica está acontecendo em um ponto no tempo-espaço, enquanto ela já aconteceu noutro lugar, muito antes, e daí até a grande revelação é só enrolação, e quanto mais enrolado o expectador, mais maravilhado ele ficará com o fim da mágica, e até pedirá bis.

E é assim que temos vivido: distraídos e enrolados. As pautas sobre as ciclovias, a redução da velocidade na marginal, a abertura da Paulista são importantes, mas não tão importantes que mereçam ficar rodando em círculos: As ciclovias são importantes para a cidade e sim, há problemas de projeto (talvez de planejamento, mas não a falta dele) e sim, elas continuarão a se multiplicar pela cidade; a redução de velocidade na marginal, nos poucos momentos em que ela pode ser desenvolvida resultará em 4 minutos a mais para atravessar a via inteira, ninguém vai morrer por causa disso, mas se apenas uma pessoa deixar de morrer por causa da redução, já teremos atingido o objetivo – toda vida conta. A Paulista vai abrir para as pessoas, os carros circularão por outras vias e as pessoas vão aproveitar isso como se nunca tivessem reclamado, é importante para a cidade, ponto. E eis que aqui em algumas linhas falei sobre as pautas mais comentadas e compartilhadas, agora próximo ponto.

Mas quais são os próximos pontos? Pouca gente viu, pouca gente falou. A falta d´água ainda não teve uma solução, vamos passar sede logo logo porque São Pedro não colaborou com o Governo do Estado. Já teve copa, as olimpíadas já estão chegando mas  não vai ter metrô, nadica até 2017. A prefeitura segue com o planejamento da cidade: é lugar comum (e em certo ponto errado) dizer que a cidade cresceu desordenadamente, mas pouca gente está participando da revisão da Lei de Uso de Solo, que complementa o Plano Diretor. Para além disso as pautas da periferia pobre (porque sim, existe uma rica) só sonham com ser tão debatidas quanto a cor da ciclovia, e elas são muitas e estão se arrastando há décadas: direito à cidade, à moradia digna, ao trabalho, ao transporte, ao saneamento básico. Entre outras tantas pautas…

 

Publicado em Cidade | Deixe um comentário

Como melhorar o paulistano?

Algumas semanas atrás a livraria Cultura promoveu um debate com a seguinte pergunta: “Como melhorar São Paulo”. Foram chamados dois arquitetos e um engenheiro de transportes para o debate e naturalmente a pergunta não foi respondida. As falas giraram em torno de mobilidade/trânsito/ciclovias, uso do espaço público/condomínios fechados e assuntos correlatos. As insinuações mais interessantes foram no sentido de como as pessoas interagem e produzem a cidade e de tudo isso a pergunta que ficou para mim é: “como melhorar o paulistano?”.

Me parece que esta pergunta, título do texto, é a própria resposta para a outra, sobre como melhorar a cidade porque de fato são nossas ideias e ações conjuntas que produzem a cidade diariamente. Por exemplo: a ideia de que não temos limites para crescer e a virtual liberdade permitida pelos meios de transporte motorizados nos permitiu criar uma cidade com mais de 50km de diâmetro, um absurdo. Também é a ideia coletiva e imperativa de que pobres e ricos devem estar separados que fez as camadas mais frágeis da sociedade irem morar nas áreas mais remotas e menos equipadas. Também é a ideia de que as ruas foram feitas para os carros que fez com que a maior parte do nosso espaço público seja destinado a eles.

Também me faz acreditar que é preciso melhorar o paulistano (e certamente me incluo aqui) para melhorar a cidade o fato de que quando nós discutimos a cidade e seus problemas, na verdade discutimos os nossos problemas individuais: não é à toa que temas como habitação e saúde sequer foram citados no debate. Mas por outro lado foi criticado o individualismo geral… mas não é o maior dos individualismos não enxergar o problema (supostamente) dos outros? Acredito que em uma sociedade, que funciona como um sistema, com interação mútua das diversas partes, um problema numa das partes significa problema no sistema inteiro.

Enfim, podemos destinar recursos financeiros e humanos à vontade para mudar a cidade mas certamente não resolveremos nossos problemas enquanto não nos transformarmos.

Por Alex Sartori
visite: facebook.com/blog.piloti

Publicado em Cidade | 2 Comentários

Mais um pouco sobre carros, cidades e bicicletas

A colunista Mariana Barros, da Veja, publicou em seu blog uma pesquisa dizendo: “Pesquisa revela que 54% são a favor de estacionar o carro na rua e 58% não trocariam o carro pela bicicleta. O texto foi publicado, além de outros lugares, na pagina da Faculdade de Arquitetura da USP – FAU USP, e gerou uma pequena discussão. A grande questão levantada foi o viés da reportagem que enfatizou os 58% que diziam não trocar o carro pela bicicleta e não os 35% que diziam que a trocariam. Não só isso, mas em determinado ponto do texto ainda se permitiu duvidar destes 35%:  “Se mesmo numa situação hipotética, como a da pesquisa, só 35% topariam a empreitada, a tendência é que esse número seja bem menor em uma situação real. Em Londres, que investiu em ciclovias no início dos anos 2000, apenas 2,5% da população usa bicicletas para chegar ao trabalho.” ( o texto completo está aqui).

Sobre Londres: Em 2001 apenas 2% das viagens eram de bicicletas (e não 2% da população como diz o texto). Com investimentos pesados na construção de ciclovias e modernização do viário, a capital inglesa pretende que 5% do total de viagens sejam feitas através de bicicletas. Esse valor é o que já tem Bogotá, onde São Paulo está se inspirando. Por lá, o ex-prefeito Peñalosa dizia que estacionar na rua não é direito constitucional, mas ir e vir é, então removeu espaço dos automóveis para dar fluidez às pessoas.

Pensando no caso paulistano e nos dados, temos, de acordo com a Pesquisa de Origem e Destino de 2007 – a mais atual – que 29,5% das viagens é realizada por meio individual, 36,5 por meios coletivos e 34,0 por meios não motorizados. Se levarmos em conta que o índice de mobilidade para meios individuais é 0,59 viagens/habitante, as vagas de estacionamento beneficiam menos de 30% da população. Ora, se 54% da população discorda da proibição de estacionar na rua mas menos de 30% se beneficia disso, poderíamos concluir que o paulistano é incoerente (isso nos remete a outros comentários feitos à jornalista, afirmando que existe uma cultura (ou uma ideologia para ser mais preciso) de culto ao uso do automóvel – as pessoas o defendem sem mesmo utilizarem). Mas na verdade apenas a pergunta é mal formulada, porque só dá margem a duas respostas: ser a favor de estacionamentos nas vias públicas ou não, o que é um tanto quanto limitante por exemplo: particularmente não acredito que todas as vagas de estacionamento devem ser extintas, muitas delas são realmente importante, principalmente para veículos de carga, vagas de alta rotatividade para automóveis e vagas para pessoas com mobilidade reduzida; não estamos excluindo o automóvel, apenas regulando seu uso, portanto, deve-se substituir vagas de estacionamento por ciclovias e também por aumento das calçadas, assim como deve-se garantir algumas vagas de estacionamento.

Para concluir, deixo aqui a sugestão do filme “bike vs carros”, que trata um pouco deste conflito ao redor do planeta e de como existe um sistema político-econômico montado a favor do automóvel em detrimento da cidade.

Publicado em Cidade | Marcado com , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sobre o Minhocão e transformações urbanas

Em muitos casos de transformação urbana há análises superficiais, como se estivéssemos vestidos com véus que nos permitem ver só uma pequena parcela dos fatos e da realidade (às vezes esse véu chama-se interesse próprio, em outras é apenas miopia mesmo). A jornalista Janes Jacob, conhecida por seu livro “Morte e vida de grandes cidades”, escreveu: “Talvez nos tenhamos tornado um povo tão displicente, que não mais nos importamos com o funcionamento real das coisas, mas apenas com a impressão exterior imediata e fácil que elas transmitem” (Página 6). Tomando o debate sobre o futuro do Minhocão como exemplo, a superficialidade está em acreditar que o ele é causa única de toda mazela do bairro, e que a simples demolição ou a construção de um parque serão capazes de transformar o bairro em extremamente agradável e livre de seus problemas atuais. Não são. Me ocupei, neste texto, de elencar e comentar alguns fatos e fatores de que existem vários outros elementos em questão e que a dita “decadência” do bairro é fruto do conjunto deles e da forma como se articularam. Estes elementos são de cunho histórico, sobre o desenvolvimento da cidade, de cunho da dinâmica urbana e dos usos da cidade e de cunho do desenho urbano.

Continuar lendo

Publicado em Cidade | Deixe um comentário

Não foi só por vinte centavos.

O resultado do primeiro turno das eleições gerou uma série de comentários nas mesas de bar, nas rodas de amigos e nas redes sociais contestando a efetividade dos protestos ocorridos em junho de 2013. Muitas pessoas consideraram que o desejo de mudança expresso nas ruas não se refletiu nas urnas, como se esperava e chegaram a considerar que as manifestações foram inúteis. Mas contrariamente a isso penso que há uma relação estreita entre aqueles eventos e as eleições, mas que provavelmente se distanciam da expectativa gerada, por dois motivos. Primeiro pelas reais motivações dos atos e segundo pelo significado que adquiriram. Continuar lendo

Publicado em Cidade | Marcado com , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Sobre o debate na Globo.

O primeiro bloco do debate de ontem a noite realizado pela Rede Globo superou minhas expectativas. Imaginei que um clima tenso estaria pairando no ar, mas jamais imaginava que logo no início teríamos um confronto da magnitude que tivemos. Em rede nacional e no canal com maior número de expectadores, Eduardo Jorge e Luciana Genro foram incríveis ao exigir que Levy Fidelix se retratasse pelas suas declarações no debate anterior, na rede Record. Não cabe aqui a discussão da validade do discurso de Levy ou sobre liberdade de expressão; isto já foi feito durante a semana e minha opinião é de que  ele está errado ao dizer “Somos maioria, vamos enfrentar essa minoria” e ao considerar a homossexualidade como doença – isso já está mais do que provado que não é.

O que nos importa aqui é que pela primeira vez houve um discurso contundente sobre a liberdade de gênero e sobre criminalização da homofobia em rede nacional, sem conversinha, sem espaço para lugares-comum ou discursos abafados. Eduardo Jorge e Luciana Genro foram precisos e disseram exatamente o que precisava ser dito e estava entalado na garganta de muitos brasileiros desde domingo. Fizeram o mesmo ao defender a regulação da maconha e do aborto.

No conjunto da obra, apenas estes dois candidatos mostraram-se abertos e sem rabos presos para defender aquilo que acreditam, e exatamente por isso são os únicos que tem posturas efetivas para defender a vida. Como Luciana citou no domingo passado, a regulação do mercado de maconha no Uruguai levou em pouquíssimo tempo o número de mortes ligadas à comercialização de maconha a zero; também foi a regulação do aborto, com assistência social e psicológica à mulher que levou à redução do número de abortos: o governo Uruguaio espera chegar à 4 mil abortos por mês, realizados de forma regular e segura, contra 33 mil que eram realizados anteriormente à lei, já são apenas 6.600 por ano e reduzindo, e nenhuma mulher faleceu. Na prática, a regulação permitiu às mulheres desistirem do aborto e garantiu segurança. Defender a regulação do aborto não é defender que as mulheres abortem, pelo contrário, como comprovam os dados (para mais informações clique aqui). Em São Paulo, a política da prefeitura de não tratar o consumo de crack como guerra às drogas e sim de uma forma mais humana, garantiu a redução do consumo da droga, emprego, renda e moradia.

Portanto, o discurso de Luciana Genro e Eduardo Jorge são os únicos capazes de nos encaminhar a uma transformação verdadeira e a solução dos problemas porque não os trata com conceitos velhos e mal formulados, e estão livres de apegos, de paixões, de narcisismos e de vícios de pensamento. Livres, principalmente de discursos de ódio, de discursos de guerra, seja contra as drogas, seja contra a homossexualidade ou o aborto; são os únicos candidatos que defendem abertamente e de forma pertinente a integração ao invés da discriminação.

Um passo importante para o país, que só com esse discurso público poderá superar idéias velhas e por-se num caminho de mais paz e respeito, sobretudo pelas diferenças. Senti, contudo, falta de que esse mesmo discurso que pede a criminalização da homofobia, assim como já é o preconceito racial, seja aplicado para as diferenças sociais. Ainda estamos aceitando o nosso abismo social como algo natural e precisamos da mesma contundência ao defender que as diferenças sociais são, sim, fruto da organização da humanidade, como já nos provou brilhantemente Rousseau no seu “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Entender definitivamente que a desigualdade gera as maiores mazelas da humanidade e ela deve ser excluída, e isso passa por pararmos de nos entender como diferentes, no sentido de uns terem, supostamente, mais capacidade que outros; passa por nos entendermos como iguais, como pregam as religiões, e vejam que isso vem de mim, abertamente ateu, portanto é de se esperar que um cristão, evangélico, ou de qualquer outra religião tenha o mesmo discurso. Ao nos livrarmos (e entendo aqui que faço parte disso, que fique claro) das nossas ideias de desigualdade vamos estar interrompendo todo e qualquer preconceito, toda e qualquer forma de sub-julgar o outro, seja pela sua preferência sexual, gênero, condição social, cor de pele, seja porque utiliza drogas ilícitas. É preciso um discurso de integração e não de exclusão, e é isso o que fizeram Luciana Genro e Eduardo Jorge.

Por Alex Sartori
(visite nossa página no Facebook: www.facebook.com/blog.piloti

Publicado em Cidade | Deixe um comentário