O monotrilho, a cidade e a questão estética

Segunda-feira publiquei uma crítica ao desdém com que a cidade tem sido tratada em questão do desenho da paisagem e dos seus elementos, e o exemplo foram as linhas de monotrilho em construção. Alguns comentários se referiam à questão como “questão estética”, com um tom de que isso não tem importância, ou pelo menos é secundário. Por isso, então, resolvi escrever sobre a importância da “questão estética” na cidade.

Antes de tudo, um rápido acerto de acepções, a começar pela ideia de “cidade”. Compreendo cidade como o espaço de reunião dos homens, portanto o lugar das trocas materiais e imateriais, é o suporte físico das relações sociais. A cidade é feita pelos homens e para os homens, de tal forma que negar isso é negar a própria ideia de cidade.

Também nos interessa a noção de “estética” – estudo das condições da percepção pelos sentidos (Kant), estudo e teoria do belo (Hegel) – e portanto também interessa a noção de “belo”, ou “beleza”, que desde Platão até os dias de hoje é muito discutida mas sempre está relacionada a questões de ordem, harmonia e proporção.

Vale acrescentar que em arquitetura chamamos os diversos elementos que compõe a cidade de “elementos morfológicos” e vão desde o material que compõe os edifícios, a rua, as calçadas, etc; até praças, parques. Todos esses elementos são dotados de valor semântico, ou seja, transmitem uma mensagem. (José Garcia LAMAS). Para melhor explicar isso, veja como as imagens abaixo são carregadas de ideias relacionadas aos materiais, às cores, à organização dos elementos.

imagem

Posto isso podemos entender que a “questão estética” não é secundária para a cidade, senão central. O tratamento devido da paisagem da cidade, “a questão estética”, não significa enfeitá-la, fantasiá-la para que agrade aos olhos, mas sim cuidar da ordem, harmonia e proporção dos seus elementos. Isso significa que é preciso cuidar do desenho de cada elemento, a ponte, o edifício, o mobiliário, etc, individualmente e em conjunto, e que no fundo é a própria organização da cidade.

Mas qual a importância disso?

Há várias motivações, vou me ater a duas. A primeira diz respeito à percepção da cidade (lembram da acepção de “estética”?). Assim como a arte em geral, a cidade também é capaz de provocar emoções e por isso está diretamente relacionada à forma como as pessoas se relacionam com ela.

Espaços que tem bom tratamento da sua paisagem são espaços que transmitem mais segurança porque, estando seus elementos organizados e em harmonia, são de mais fácil leitura (Kevin Lynch). Como citei acima, os elementos morfológicos tem valor semântico e nós procuramos o tempo todo interpretá-los, vai daí a sensação de estarmos perdidos quando nos deparamos com um bairro ou cidade desconhecidos. É como estar numa casa e reconhecer o mobiliário e a disposição dos cômodos e em outra completamente desconhecida (Ludmila Brandão). A este fenômeno de se reconhecer em um espaço Deleuze e Guattari deram o nome de “territorialização” e o reconheceram como extremamente importante para a experiência do espaço.

Portanto, as partes da cidade cujo desenho foi mais atento às questões já citadas de beleza, são as mais frequentadas e por onde as pessoas mais fruem, mais gozam do espaço, do caminhar, do estar e da observação, por isso são os lugares da cidade que oferecem melhores condições ao encontro das pessoas. E isso é de tal forma importante que a ausência de espaços com essa capacidade tem efeitos nocivos sobre o tecido social, como a fragmentação; é indispensável que as pessoas se encontrem, se vejam e interajam.

Por outro lado, uma cidade legível, ou bela (entendo que um pressupõe o outro), é também uma cidade que facilita o deslocamento das pessoas porque é capaz de oferecer referências suficientes. Isso faz com que as pessoas tenham mais noção de qual sua posição e para onde devem ir. Por exemplo, bairros com malha reticulada são mais fáceis de serem atravessados, porque conseguimos compreender a estrutura e entender que as ruas se dispõe em paralelas e transversais; já em bairros Jardins a sinuosidade das ruas dificulta a compreensão da estrutura do espaço e portanto o deslocamento, ainda mais se não houver marcos visuais, como edifícios notórios.

Portanto, quanto tratamos de “questões estéticas” estamos tratando de outras diversas questões, como sociais e mesmo funcionais da cidade. Assim, o debate polarizado entre “funcional” contra “beleza” recai numa acepção restrita de ambas as palavras. Mas tomando “funcional” por uma pretensa solução para o trânsito, desconexa de “questões estéticas” (no sentido reduzido da palavra), podemos nos indagar: e se São Paulo fosse cheia de fura-filas, ligações leste-oeste?

Certamente seria uma cidade mais fragmentada e com um problema ainda maior de circulação. A ligação leste-oeste partiu o Bixiga em dois; a paisagem sob o viaduto é uma das mais terríveis da cidade e não é de se estranhar que é também um lugar pouco seguro e portanto onde ninguém permanece (a não ser algumas pessoas excluídas do mercado de moradia e da própria cidade, para as quais restam as partes negligenciadas e abandonadas). O mesmo vale para a avenida do Estado, que não só por culpa do Expresso Tiradentes, mas pelo conjunto de obras grotescas é um lugar a menos para as pessoas, um a mais para as máquinas. A avenida jornalista Roberto Marinho tem um destino semelhante: o rio foi mais uma vez ferido, a via será expressa e para onde TODOS os edifícios novos voltam suas costas (os acessos estão nas ruas paralelas). Faltam edifícios de frente para a avenida que possam oferecer alguma coisa para o pedestre, de tal forma que o ambiente se tornará mais hostil. E sobre tudo isso, como uma coroa, o monotrilho.

Poderiam então argumentar dizendo que nem tudo são flores, mas é justamente esse o papel da arquitetura, porque faz a cidade para os homens: garantir a qualidade do espaço ao mesmo tempo que soluciona as questões de transporte.

Por Alex Sartori

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Referências:
http://www.montfort.org.br/a-beleza-no-mundo-no-homem-e-em-deus-a-filosofia-da-arte-a-sabedoria-de-deus-na-criacao-e-a-vida-espiritual/
BRANDÃO, Ludmila de Lima. A casa subjetiva. 2008.
LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. 1960.
LAMAS, Garcia. Morfologia urbana e desenho da cidade. 1993.
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7 respostas para O monotrilho, a cidade e a questão estética

  1. Giorgia disse:

    Tem um exemplo de fragmentação MUITO claro para mim: radial leste+metrô+trem!!! Vamos cortar a ZL no meio mesmo, lá ninguém tem “poder”.
    Outro mais representativo e simbólico: estação armênia do metrô e o antigo bairro da ponte pequena.
    Porque será que não fizeram a Linha verde (trecho da Av. Paulista) elevada ou passaram seus trilhos no chão mesmo, ao invés de enterrá-la? Será que não é questão de “estética” nesse caso específico? (E poder, obviamente).
    Não sei o motivo pelo qual todos associam beleza a enfeite simplesmente…

    Negar a tríade clássica da arquitetura (firmitas, utilistas e venustas), que influencia até os mais contemporâneos – mesmo que inconscientemente – , é negar também a necessidade da existência da nossa própria profissão…

  2. Kiko Morente disse:

    tenho formação como publicitario e vivi muito essa discussão da função x estética, quando na verdade, o que se deveria discutir é a função + estética. É fácil entender a “função” da estética na cidade. Troque a (questionável) ponte estaiada por mais um “cebolão”, tire as curvas do Copan e troque a Estação da Luz por um galpão genérico. As funções estariam lá, mas quanto se perderia?
    Outro ponto que sugiu nos comentários é o “espaço do carro”. Na minha opinião SP tem uma especie de “fetiche” por metrô/afins. Acho que em parte é pela manutenção do espaço sagrado do carro, somada á uma classe média que até está disposta a usar TP, mas só se for igual Paris ou NY. Nunca fiz as contas, mas acho que poderíamos resolver a maior parte do problema do transporte em SP com simples corredores de onibus/BRT. Sempre penso se precisariamos mesmo de metro se tivessemos corredores (por ex) na Marginal, Faria Lima, Brasil, Paulista x Rebolsas, 9 de julho, 23 de maio, e bilhete unico com baldeações infinitas por 2h.

    • Alex Sartori disse:

      Kiko,

      Há algum tempo também tenho me feito essa pergunta. Será que o metrô é mesmo indispensável?

      • Isac disse:

        Uma “certa” malha metroviária é necessária, mas não deve ser vista (como está sendo) como a solução mágica para todos os problemas. O ideal, em minha opinião, é uma composição ponderada de diversos modais, com ênfase nos coletivos.
        E quanto a “questão estética” concordo com o artigo do Alex em todos os aspectos. Resumindo, dizer que existe um conflito “belo” X funcional, é não enxergar a função da “beleza” (muito bem explicada no texto).
        Bairros jardins priorizaram uma beleza contemplativa, onde você é convidado a olhar (de preferência do alto, do avião, do g-maps) mas não a usar. São a não-cidade.

  3. Pingback: O monotrilho paulistano e o desdém com a cidade | Piloti!

  4. Pingback: As obras de infra-estrutura e o cuidado com a cidade | Piloti!

  5. Felipe disse:

    Infelizmente a questão estética em São Paulo é quase uma causa perdida. Fosse apenas o monotrilho vá lá, mas o que mais deixa a paisagem desconcertante e exaustiva é a imensa massa de edifícios residenciais de arquitetura inexpressiva e/ou medíocre como os edifícios falso-neoclássicos que viraram epidemia entre os novos ricos.

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