Sobre o Minhocão e transformações urbanas

Em muitos casos de transformação urbana há análises superficiais, como se estivéssemos vestidos com véus que nos permitem ver só uma pequena parcela dos fatos e da realidade (às vezes esse véu chama-se interesse próprio, em outras é apenas miopia mesmo). A jornalista Janes Jacob, conhecida por seu livro “Morte e vida de grandes cidades”, escreveu: “Talvez nos tenhamos tornado um povo tão displicente, que não mais nos importamos com o funcionamento real das coisas, mas apenas com a impressão exterior imediata e fácil que elas transmitem” (Página 6). Tomando o debate sobre o futuro do Minhocão como exemplo, a superficialidade está em acreditar que o ele é causa única de toda mazela do bairro, e que a simples demolição ou a construção de um parque serão capazes de transformar o bairro em extremamente agradável e livre de seus problemas atuais. Não são. Me ocupei, neste texto, de elencar e comentar alguns fatos e fatores de que existem vários outros elementos em questão e que a dita “decadência” do bairro é fruto do conjunto deles e da forma como se articularam. Estes elementos são de cunho histórico, sobre o desenvolvimento da cidade, de cunho da dinâmica urbana e dos usos da cidade e de cunho do desenho urbano.

Do ponto de vista histórico é preciso compreender que o Centro, de forma geral, atravessou profundas transformações, desde o auge da cafeicultura até os dias atuais; tantas que o professor Benedito Lima de Toledo chegou a se referir a São Paulo como “Três cidades em um século”, título de seu livro. Devemos considerar, portanto, as dimensões temporal e espacial: nenhuma mudança na cidade ocorre da noite para o dia (salvo em casos extremos como guerras e catástrofes naturais), assim como que o Centro de São Paulo é uma área bastante pequena e muito densa. Ao mesmo tempo nenhum ponto da cidade nasce central, ele se faz central à medida que a cidade se desenvolve (VILAÇA, Flávio, O Espaço Intra-urbano no Brasil). São Paulo teve um crescimento ilimitado e irrestrito em todos os sentidos, que somado às mudanças nos modais de transporte resultaram em intervenções que, a priori, tornariam o viário adequado às novas necessidades, daí nasceram obras como a ligação leste-oeste (que rasga o bairro do Bixiga e em termos de impacto é MUITO pior que o Minhocão), o terminal Parque Dom Pedro, entre tantos outros exemplos. Neste ponto cabe frisar que há uma perda substancial da qualidade do desenho urbano – o cuidado que aparece em avenidas como a São Luis e nos croquis do Plano Prestes Maia foi substituído por uma noção imediatista e funcionalista da cidade, resultando em obras grosseiras, como é o caso do próprio Minhocão, e que se tornou regra para outras obras na cidade. (para mais clique aqui)

Aquarela de Prestes Maia para o Anhangabaú

Esta expansão da cidade aconteceu de formas variadas no tempo e espaço, mas o vetor que mais nos interessa é o sudoeste: com a construção do primeiro Viaduto do Chá passou-se a ocupar a margem esquerda do rio Anhangabaú, região que recebeu o nome de Novo Centro, de forma a contrapor-se um outro centro que, então, passaria a chamar-se de Centro Velho. Não só no nome estes dois territórios se diferenciariam, mas também no desenho urbano. As novas ruas e novas construções seguiam padrões europeus e pretendiam marcar um novo espírito da capital paulista. Por isso as avenidas São João, Ipiranga, Duque de Caxias, Rio Branco, São Luís, Consolação e Pe. Vieira de Carvalho eram, originalmente, bulevares e possuem edifícios projetados por renomados arquitetos, além de equipamentos públicos como a Biblioteca Mário de Andrade e o Teatro Municipal. Não à toa esta parcela da cidade foi ocupada pelas elites, enquanto que a leste a cidade sofria com as incontáveis enchentes do Tamanduateí, que inundavam o Brás. É este espaço, criado para servir de imagem do que era São Paulo à época que o Minhocão veio a cortar, em 1970. A expansão a sudoeste já estava anunciada desde a virada do século XIX para o XX, com o loteamento da avenida Paulista, Higienópolis e, mais tarde, do Jardim América, voltados para as elites.

Acontece que, por volta de 1930, parte desta área do chamado Centro Novo já deixava de ser interessante para os pioneiros de sua ocupação. O bairro dos Campos Elíseos, que ainda hoje abriga alguns palacetes e já foi sede do Governo do Estado, passava a ser trocado pela Avenida Paulista, Higienópolis e os Jardins, por diversos fatores: 1. A proximidade da linha férrea se tornava cada vez mais incomoda e desnecessária, já que o automóvel passava a ser um meio viável de transporte para as elites (é importante considerar que o trem servia como deslocamento também dentro da cidade, como no trajeto entre os Campos Elíseos e o antigo Hipódromo, nas proximidades da rua dos Trilhos, Mooca); 2. O avanço da industrialização sobre o bairro com resquícios das fábricas da Barra Funda; 3. A instalação das classes operárias no entorno do bairro para trabalhar na Água Branca / Barra Funda; 4. O desejo da manutenção de um padrão de vida e sua correspondente no desenho urbano: casas isoladas no lote, em bairros densamente arborizados, etc. Com a saída da elite, os antigos casarões tornaram-se cortiços, a principal condição de habitação do operariado até 1940 quando Getúlio Vargas promulgou a Lei do Inquilinato e inviabilizou-os. A partir daí, então, as favelas na periferia passaram a se tornar a principal condição de moradia das classes mais baixas.

Os bairros vizinhos também passaram por transformações importantes muito antes da construção do Minhocão. A década de 1950 foi marcante para o quadrilátero entre as ruas do Timbirás e Protestantes e as avenidas São João e Duque de Caxias, que passou a ser local de prostituição e chegou a ser chamado de Boca do Lixo, região de maior violência na cidade no final da década de 1960, como nos aponta a reportagem do Estadão, de 1970:  “A via elevada corta o foco da boca do lixo, região de maior criminalidade de São Paulo”

estadao

A avenida São João, que aparece em diversos momentos do debate sobre o Minhocão, exibida como um lugar cheio de glamour, terminava pouco antes da praça Marechal Deodoro, como nos provam os mapas históricos. A própria praça é, na verdade, o resultado de um ajuste geométrico decorrente da extensão da avenida (por isso deveria ser chamada de largo, não praça). A São João que aparece nas fotos é do trecho que não foi coberto pelo Minhocão, próximo ao Largo do Paysandu e na região da antiga Cinelândia Paulista, onde estão cinemas como o Marrocos, Olido e Art Palácio.

Os cinemas desta região são um testemunho de como transformações nos usos dos edifícios impactam diretamente sobre a dinâmica urbana, e vice-versa. Hoje apenas o Cine Olido, na São João e o cine Marabá, na avenida Ipiranga, funcionam como cinemas convencionais. Os demais foram transformados em igrejas, em cinemas pornográficos ou foram simplesmente demolidos. Para voltar às atividades o Marabá Passou por uma reforma profunda no seu interior, que transformou sua única sala para 1655 expectadores em 5 salas menores, mais adequadas às atuais condições de exibição de filmes e de público: antigamente havia menos sessões e o público se concentrava, enquanto hoje há muitas seções e dispersão de público. Todos os cinemas desta região eram de grandes proporções, como o Cine Art Palácio que tinha capacidade para 3.119  pessoas numa única sala. Vale lembrar que os cinemas muitas vezes exibiam não só filmes, mas também notícias. As novas salas de cinema que se abriam eram mais adequadas às condições da cidade, à forma de exibição, ao número de filmes disponíveis e, inclusive, sobre a concorrência da televisão, inaugurada em 1950 no Brasil.

Outro exemplo de transformação de usos e edifícios são os hotéis.. Outrora bem localizados e de luxo, próximos à estrada de ferro que conectava interior e litoral (a São Paulo Railway – Santos Jundiaí), os hotéis perderam a clientela por diferentes motivos, dos quais se pode destacar que muitas vezes os banheiros eram coletivos (o que hoje é praticamente inimaginável, principalmente nos mais luxuosos) e que os trens foram substituídos por automóveis e ônibus na conexão com outras cidades, e posteriormente por viagens feitas em aviões. Isto mudou a lógica de localização dos hotéis que passaram a se concentrar na Av. Paulista e mais tarde na Faria Lima/Berrini, acompanhando o mesmo deslocamento de muitos equipamentos públicos e privados. É importante destacar que a transformação de um ou um conjunto de usos de um bairro está intimamente ligado à sua transformação completa, por exemplo: ao redor dos hotéis instalam-se outros comércios e serviços que atendem às demandas dos viajantes; se os hotéis são luxuosos é de se imaginar que o comércio que os circunda também o seja, que os cafés sejam requintados, por exemplo, e por tanto, a transformação de um ou um conjunto de usos modifica toda a dinâmica do bairro, podendo lhe atribuir ou retirar valor, dependendo de qual sentido a transformação tomar.

As áreas deixadas pelas elites perderam valor de mercado porque já não atraiam mais  os mesmos consumidores, capazes de pagar os altos valores do preço dos imóveis, cedendo espaço para classes menos abastadas. Isso também tem seu impacto direto sobre a dinâmica urbana: mudam os moradores, muda o comércio. Também tem impacto sobre a conservação dos imóveis, porque dotados de menos recursos financeiros os novos moradores não possuem as mesmas condições de manutenção dos antigos moradores, então é de se esperar que haja mudanças na fisionomia dos edifícios e do bairro em si.

O processo de abandono é semelhante a áreas de usos diferentes em São Paulo e no mundo, como por exemplo as antigas fábricas do Brás-Mooca, que inadequadas às novas condições de produção, foram, gradativamente substituídas por fábricas novas sem terem sido demolidas; muitas foram apenas abandonadas e assim estão por décadas, configurando um dos maiores problemas/desafios da cidade.

O processo de transformação do Centro de São Paulo tem outras motivações e uma complexidade maior que não cabe tratar aqui, mas o que vale citar é que é um processo que aconteceu de forma muito semelhante em várias cidades do Brasil e do Mundo: muitos centros históricos foram abandonados ou passaram por transformações profundas nos seus usos e têm sido alvo de programas de reabilitação nas últimas décadas.

É neste cenário composto por diversas transformações objetivas e subjetivas que está a construção do Minhocão, e como dito anteriormente, com uma postura completamente desrespeitosa com o desenho urbano assim como foram outras tantas obras. Portanto, não é possível apenas considerar o Minhocão como A causa de uma suposta “degradação” do Centro e dos bairros que atravessa. Ele é um elemento, mas de longe não é sequer o principal. Além desses fatores mantêm-se outras considerações falsas sobre o Minhocão como: “ele é fonte de ruído / poluição”. Sim, de fato é, mas não da forma imaginada. Estudos já comprovaram que parte da poluição do ar não teria nenhum impacto com a desativação da via, como é o caso do material particulado suspenso, porque provém da queima de diesel, combustível de caminhões e ônibus, que não circulam pelo Minhocão. O ruído teria redução de aproximadamente 7 dB com a exclusão dos automóveis do minhocão, enquanto os níveis de ruído nas janelas pode passar os 100 dB. Estas informações foram veiculadas no primeiro “Fórum de Diálogo sobre o Futuro do Minhocão”, realizado em 3 de dezembro de 2014 na Câmara Municipal.

A imprecisão das análises e desconsiderar o contexto histórico certamente nos levarão a proposições errôneas à medida que a expectativa que geram são falsas, porque os problemas existentes não se relacionam com as causas como imaginado. Assim, eliminar o Minhocão ou construir o parque linear não acarretará na transformação do bairro como imagina-se, e pode se  inserir como uma outra falha. O debate não deveria, sequer, ser sobre demolir o Minhocão ou construir um Parque, mas sobre projetos. Esta polarização do debate o reduzirá a considerar a via elevada como causa das mazelas do bairro, tal como é, e nos fará imaginar que eliminá-lo ou transformá-lo levarão às transformações imaginadas para o bairro. Não levarão. Existem N possibilidades de parques assim como existem N possibilidades de demolição, portanto é preciso que no projeto se condense todo o conjunto de fatores que compõe a problemática do Minhocão. Há projetos de parques que podem ser péssimos e incapazes de fazer frente aos problemas existentes e suas causas, da mesma forma que os projetos de demolição.

Por Alex Sartori

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Referências bibliográficas:
VILLAÇA, Flávio. Espaço intra-urbano no Brasil.
JACOBS, Jane. Morte e Vida de Grande Cidades.
LANGENBUCH, Juergen Richard. A estruturação da grande São Paulo.
TOLEDO, Benedito Lima. São Paulo: três cidades em um século.

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