A violência no ES e o debate

O aumento de casos de crimes violentos coincidente com a greve da polícia militar no Espírito Santo reacende o debate: “policia, para quê precisa?” Os dados, para muitos, são prova irrefutável de que a militarização é indispensável. Para outros, isso não prova nada e a desmilitarização ainda é importante. O fato é que de um lado e de outro há uma falha na conclusão por que há uma falha na hipótese.
Durante décadas tanto as ciências sociais quanto o senso comum culparam a desigualdade social pela criminalidade. Isso se apoiou em dados estatísticos que demonstraram que países com índices menores de desigualdade têm menores índices de criminalidade. Isso pode servir, inclusive, para culpar a pobreza pela violência, ou seja, o crime aparece como hipótese viável dada a condição precária do indivíduo e do coletivo, o que sustenta preconceitos contra a população pobre e a negra também (uma vez que no Brasil, assim como em outros países, a maior parte dá população pobre é negra).

Por isso, essa tese não responde bem à questão das origens da violência no país. Em vez disso poderíamos pensar na forma como a violência faz parte da nossa cultura, é parte da nossa educação. Ela é parte da formação de cada um de nós desde o princípio da infância quando os pais optam não apenas às palmadas para que os filhos atendam às suas vontades, mas também pela aplicação de força desproporcional contra uma criança que não tem a mesma condição de se defender, como um “inocente” puxão pelo braço.

Aqui há um véu que precisa ser removido para que a analise seja mais profunda: o que se considera crime e violência no Brasil? Assaltos, assassinatos (excluídos aqueles cometidos pelo Estado), roubos, furtos, etc. Mas existem uma série de outras violências que não são consideradas como tal e muitas vezes, para o discurso predominante, são consideradoas mero vitimismo. É o caso do assédio (sexual e moral), do estupro (porque ainda insistem em culpar a vítima), e também da fome, da segregação e exclusão, da falta de habitação. Se considerarmos esses pontos como violência tal qual um assassinato poderemos observar que a violência, na nossa sociedade, é a forma de manutenção da ordem.

A violência, seja pela falta de moradia, fome, ou por assassinatos cometidos pelo Estado, são uma forma de manter a população pobre no seu lugar. A violência de gênero é a forma de manutenção dos privilégios de gênero, de manter a mulher submissa ao homem e de impedir manifestações de identidade de gênero. A violência da fome impede milhões de desenvolverem suas capacidades humanas, quiçá sua organização política. A ordem social, por aqui, é a desigualdade; nossa sociedade está estruturada em função da desigualdade. É a desigualdade que justifica uns terem mais do que outros, ou mais além, é a desigualdade que justifica uns morrerem de fome enquanto outros esbanjam (como alguns insistem em interpretações erradas do termo “desigualdade”, cabe acrescentar que ele tem significado distinto de “diferente”, as pessoas no mundo são diferentes entre si, o que, por si só, não justifica que sejam desiguais – a quem se interessar mais neste aspecto, recomendo o livro do Rousseau, “Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os homens”). Em sociedades mais igualitárias é exatamente este o ponto que diverge de nós: a violência faz muito menos parte da sociedade desde as mais modestas formas de manifestação até os assassinatos e roubos. Uma sociedade verdadeiramente igualitária não admite que uma pessoa passe fome se há comida para todos (hoje a produção de alimentos na América Latina é 40% maior que a demanda, segundo a FAO – Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) muito menos usa isso como forma de manter o controle sobre um grupo de pessoas.

Portanto, a teoria de que desigualdade gera violência é exatamente oposta. É a violência que gera desigualdade. Isso porque em milênios, apesar do polegar opositor e de 3% de diferenças genéticas com relação aos chipanzés, nós não tivemos capacidade de nos organizar enquanto sociedades altamente complexas para que nenhum de nós sofresse dessas desconsideradas violências e, pelo contrário, fizemos o exato oposto, e utilizamos de diversas violências para nos organizarmos tal qual estamos organizados. Isso significa que todas as nossas teorias sobre redução do crime violento (assassinatos, roubos e etc) não funcionarão a menos que considerem a real complexidade do assunto e uma mudança drástica na sociedade.

 

Por Alex Sartori

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